Na pequena ilha de Ataúro, a 17 kms da costa, em frente a Dili (capital da ilha), existe a crença popular nos Lé-Káli e Mimítu, criaturas com cabeça de serpente suportada por um esquálido corpo humano.
Seus dentes compridos, garras e mãos enormes assustavam adultos e crianças, conforme nos conta o antropólogo português Jorge Barros Duarte em seu livro "Ritos e mitos Ataúros" (Lisboa, 1984). Os habitantes da montanhosa ilhota acreditam que os Lé-Káli e Mimítu podem aparecer sob a forma de um morcego para roubar-lhes a alma...
in Timor: mitos e lendas de um povo livre
domingo, 28 de julho de 2013
Os «vampiros» de Ataúro
O gigante e a lua
Noutros tempos habitava em Timor um gigante chamado Beileira,
duma estatura tão desmedida, que, pondo-se de pé, facilmente com a mão chegava
às estrelas.
Uma vez, um filho do gigante, estando ao colo do pai,
estendeu o braço e com a mão sujou a lua com banana assada e cinza.
Este gigante teve um fim horrivelmente trágico. Casara. Ainda
a noite não tinha envolvido inteiramente a Terra no seu negro manto, já o
gigante, cansado, recolhera ao tálamo nupcial, não tardando a adormecer
profundamente. A noiva recolhera mais tarde. Já no leito, reparara esta que
entre os dois se interpusera uma jibóia gigante, de grossura e comprimento
assombrosos.
Rapidamente agarra na catana de guerra do gigante e a golpes
repetidos a ataca. Só depois e já sem remédio, veio a reconhecer que o gigante
se esvaía em sangue, morrendo juntamente com a jibóia.
Na planície de Quirás, no posto de Fatu-Berlio, região de
Manufai, foi enterrado o gigante Beileira, mas para caber nas covas que lhe
abriram, tiveram de o dividir em sete partes.
in «Mitos e Contos do Timor Português», de Correia de Campos.
Agência-Geral do Ultramar
O crocodilo que se fez Timor
Disseram, e eu ouvi, que desde há muito séculos um crocodilo
vivia num pântano. Este crocodilo sonhava crescer, ter mesmo um tamanho
descomunal. Mas a verdade é que ele não era só pequeno, como vivia num espaço
apertado. Tudo era estreito à sua volta, somente o sonho dele era grande.
O pântano é de ver, é o pior lugar para morar. Água parada,
pouco funda, suja, abafada por margens esquisitas e indefinidas. Ainda por
cima, sem abundância de alimentos ao gosto de um crocodilo.
Por tudo isto, o crocodilo estava farto de viver naquele
pântano, mas não tinha outra morada.
Ao longo do tempo, milhares de anos, parece, o que ia
valendo ao crocodilo era o ele ser grande conversador. Enquanto estava
acordado, conversava, conversava... É que este crocodilo fazia perguntas a si
mesmo e, depois, como se ele próprio fosse outro, respondia-se-lhe.
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